Na Odontologia restauradora, remover menos tecido não significa fazer menos. Significa preservar mais opções para o futuro.
Durante muito tempo, tratar uma lesão de cárie significava, essencialmente, remover o tecido afetado e restaurar a cavidade.
Hoje, a Odontologia de mínima intervenção propõe uma mudança de raciocínio: preservar estrutura dental sempre que biologicamente possível, controlar a doença e intervir de maneira proporcional ao risco e à atividade da lesão.
Isso não significa “não tratar”.
Significa tratar a doença sem sacrificar estrutura saudável desnecessariamente.
Antes de decidir pela intervenção, é preciso entender o que está acontecendo com a lesão.
A cárie é uma doença dinâmica, e uma lesão pode estar ativa ou inativa, além de apresentar diferentes profundidades e características clínicas.
O consenso da International Caries Consensus Collaboration recomenda que a decisão terapêutica considere atividade da lesão, risco de cárie e profundidade, evitando remoção desnecessária de tecido dental saudável (SCHWENDICKE et al., 2016).
Por isso, diante de uma lesão, a pergunta mais interessante é:
“Qual é a menor intervenção capaz de controlar a doença e preservar a estrutura?”
Essa é uma das mudanças mais importantes da Dentística contemporânea.
Em lesões profundas, a remoção completa do tecido cariado próximo à polpa pode aumentar o risco de exposição pulpar.
A remoção seletiva busca deixar dentina afetada próxima à polpa quando isso permite reduzir o risco de exposição e realizar uma restauração com bom selamento.
Uma revisão sistemática e meta-análise mostrou que a remoção seletiva ou em etapas, em comparação à remoção não seletiva, reduz significativamente o risco de exposição pulpar em dentes com cárie profunda (SCHWENDICKE et al., 2013). (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
Isso representa uma mudança de paradigma: não é mais “remover tudo a qualquer custo”. É: remover o necessário para controlar a doença, preservando o máximo possível de estrutura.
Aqui está uma diferença fundamental.
Mínima intervenção não é mínima atenção.
Se existe uma lesão ativa, o tratamento precisa controlar os fatores que permitem sua progressão.
Isso pode envolver controle de biofilme, fluoretos, mudanças comportamentais, controle de dieta, acompanhamento e, quando indicado, intervenção restauradora.
A abordagem contemporânea de manejo da cárie recomenda combinar estratégias não operatórias e operatórias, escolhendo a intervenção de acordo com atividade, profundidade e risco individual do paciente (SCHWENDICKE et al., 2016).
Portanto:
Preservar tecido sem controlar a doença não é mínima intervenção. É subtratamento.
Existe um paradoxo importante na Odontologia:
restaurar um dente resolve um problema atual, mas cria uma restauração que também precisará ser acompanhada.
Restaurações podem apresentar fratura, desgaste, desadaptação, cárie secundária e outras complicações ao longo do tempo.
Uma revisão sistemática sobre o ciclo de vida das restaurações mostrou que a substituição de restaurações pode resultar em uma progressiva perda de estrutura dental, especialmente quando cada substituição envolve remoção adicional de tecido (BLUM et al., 2018).
É o chamado “ciclo restaurador”:
lesão → restauração → falha → substituição → restauração maior → nova falha → nova substituição.
Por isso, quando uma restauração existente apresenta um problema localizado, a pergunta nem sempre deve ser:
“Precisamos trocar tudo?”
Pode ser:
“É possível reparar?”
A Odontologia minimamente invasiva também mudou a forma de pensar restaurações que apresentam pequenas falhas.
Em determinadas situações, reparo, selamento ou remodelação localizada podem evitar a remoção desnecessária de uma restauração inteira e de mais estrutura dental.
Uma revisão sistemática sobre reparo versus substituição de restaurações encontrou evidências de que o reparo pode ser uma alternativa clinicamente aceitável em determinadas situações, embora a qualidade da evidência varie conforme o tipo de restauração e o cenário clínico (HEINTZE; ROUSSON, 2012).
Isso não significa que toda restauração deva ser reparada.
Significa que substituição não deveria ser uma resposta automática à primeira falha localizada.
Antes de remover ou substituir, pergunte:
□ A doença está ativa?
□ Quanto tecido saudável será removido?
□ A lesão pode ser controlada sem intervenção operatória?
□ A remoção seletiva é apropriada para a profundidade da lesão?
□ Uma restauração existente precisa realmente ser substituída por completo?
□ É possível reparar uma falha localizada?
□ O paciente apresenta risco de novas lesões?
□ Como a decisão de hoje afetará as possibilidades de tratamento no futuro?
Essa última pergunta talvez seja a mais importante.
Porque um dente não termina seu tratamento na restauração de hoje.
A mínima intervenção não significa escolher sempre o procedimento menor.
Significa escolher a intervenção proporcional ao problema.
Às vezes, isso significa não restaurar.
Às vezes, significa remover seletivamente.
Às vezes, significa reparar em vez de substituir.
E às vezes, quando a destruição é extensa ou o risco biológico exige, uma intervenção restauradora mais ampla será necessária.
O princípio permanece o mesmo:
preservar estrutura dental, controlar a doença e manter o maior número possível de opções terapêuticas para o futuro.
Na prática, talvez a pergunta mais moderna da Dentística não seja:
“Quanto tecido consigo remover?”
Mas:
“Quanto tecido consigo preservar sem comprometer o controle da doença e o resultado do tratamento?”
Essa é a essência da mínima intervenção.
SCHWENDICKE, Falk et al. Managing carious lesions: consensus recommendations on carious tissue removal. Advances in Dental Research, v. 28, n. 2, p. 58-67, 2016. DOI: 10.1177/0022034516639271.
SCHWENDICKE, Falk; DÖRFER, Christian E.; PARIS, Sebastian. Incomplete caries removal: a systematic review and meta-analysis. Journal of Dental Research, v. 92, n. 4, p. 306-314, 2013. DOI: 10.1177/0022034513477425.
SCHWENDICKE, Falk et al. Managing carious lesions: consensus recommendations on carious tissue removal. Advances in Dental Research, 2016.
HEINTZE, Siegward D.; ROUSSON, V. Clinical effectiveness of direct class II restorations—a meta-analysis. Journal of Adhesive Dentistry, 2012.
BLUM, I. R.; LYNCH, C. D.; WILSON, N. H. F. Factors influencing repair versus replacement of dental restorations: a review of the literature. Dental Materials, 2018.
INNES, N. P. T. et al. Managing carious lesions: consensus recommendations on terminology. Advances in Dental Research, 2016
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