A Odontologia está mudando em várias frentes ao mesmo tempo. Novos materiais, técnicas restauradoras, recursos diagnósticos, fluxos digitais e ferramentas de apoio à decisão ampliam as possibilidades do profissional.
Mas existe um risco nessa evolução: confundir novidade com avanço.
Uma tecnologia pode ser sofisticada. Um protocolo pode ser moderno. Um equipamento pode oferecer recursos que antes não existiam.
Nada disso, isoladamente, garante um resultado melhor.
O verdadeiro avanço acontece quando ciência, domínio técnico e experiência clínica passam a trabalhar juntos.
A ciência oferece algo que a novidade não oferece: critério.
Antes de incorporar uma técnica ou tecnologia, o profissional precisa perguntar:
Qual problema ela resolve?
Qual é a qualidade da evidência?
Em quais situações ela funciona?
Quais são suas limitações?
A prática baseada em evidências não significa simplesmente aplicar o artigo científico mais recente. Ela envolve integrar a melhor evidência disponível com a experiência clínica e os valores e necessidades do paciente (SACKETT et al., 1996).
Essa distinção é fundamental.
Porque “novo” não é sinônimo de “melhor”.
E “funciona em determinadas condições” não significa “deve ser utilizado em todos os pacientes”.
Conhecer uma técnica não significa necessariamente executá-la bem.
Entre saber o que fazer e conseguir fazer previsivelmente, existe uma distância.
É aí que entram treinamento, experiência, controle do campo, domínio dos materiais, compreensão da anatomia e capacidade de reconhecer limitações.
A literatura sobre aquisição de habilidades clínicas mostra que competências profissionais não são desenvolvidas apenas pela exposição ao conhecimento teórico, mas pela combinação de prática, feedback e experiência deliberada (ERICSSON; KRAMPE; TESCH-RÖMER, 1993).
Na Odontologia, isso é particularmente evidente.
O mesmo protocolo pode produzir resultados diferentes dependendo de como é executado, em qual substrato e em qual situação clínica.
A técnica é o ponto em que conhecimento deixa de ser informação e passa a produzir ação.
Existe uma diferença entre seguir um protocolo e compreender quando aquele protocolo precisa ser adaptado à realidade clínica.
Um caso pode apresentar uma anatomia diferente.
O paciente pode responder de maneira inesperada.
O campo operatório pode não oferecer as condições previstas.
Um exame adicional pode revelar uma variável que muda o planejamento.
Nessas situações, experiência clínica não significa “fazer do jeito que sempre fez”.
Significa reconhecer quando a situação deixou de corresponder ao cenário inicialmente planejado.
A tomada de decisão clínica em Odontologia envolve justamente a integração de evidências científicas com fatores relacionados ao paciente, ao contexto e ao julgamento profissional (WHITE; MAUPOMÉ, 2003).
Experiência não substitui ciência. Ela ajuda a interpretar onde e como a ciência se aplica.
É aqui que a transformação digital entra.
Scanners intraorais, sistemas de imagem tridimensional, microscopia, equipamentos ultrassônicos e ferramentas digitais podem ampliar a capacidade de visualizar, registrar, executar e controlar determinadas etapas clínicas.
Mas tecnologia não elimina a necessidade de interpretação.
Um scanner pode produzir um modelo digital.
Quem decide se aquele modelo é adequado para a finalidade clínica é o profissional.
Um exame tridimensional pode revelar uma estrutura anatômica.
Quem determina sua relevância para o diagnóstico é o profissional.
Um equipamento pode oferecer maior controle sobre determinado procedimento.
Quem decide quando, por que e como utilizá-lo continua sendo o profissional.
A literatura sobre Odontologia digital reforça que a incorporação de tecnologias precisa ser analisada não apenas pela capacidade técnica dos sistemas, mas também por sua acurácia, indicação e integração ao fluxo clínico (MANGANO et al., 2017).
Existe uma última conexão que nenhuma tecnologia pode resolver sozinha.
O paciente.
A melhor decisão clínica não é necessariamente aquela que utiliza mais recursos.
É aquela que considera:
evidência científica + situação clínica + experiência profissional + necessidades do paciente.
A prática baseada em evidências foi justamente concebida como uma integração entre melhor evidência disponível, experiência clínica e valores do paciente (SACKETT et al., 1996).
Por isso, o futuro da Odontologia não será simplesmente mais digital.
Será mais integrado.
O profissional precisará transitar entre literatura científica, técnica operatória, tecnologia, interpretação de dados e comunicação com o paciente.
Não será simplesmente saber utilizar o equipamento mais novo.
Nem conhecer a técnica mais recente.
Nem acumular certificados.
Será saber conectar as coisas.
Ciência para questionar.
Técnica para executar.
Experiência para interpretar.
Tecnologia para ampliar possibilidades.
Empatia para compreender quem está do outro lado da cadeira.
Essa integração é o que transforma inovação em valor clínico.
O futuro da Odontologia não pertence à tecnologia. Pertence ao profissional capaz de fazer a tecnologia trabalhar a favor da ciência, da técnica e, principalmente, do paciente.
SACKETT, David L. et al. Evidence based medicine: what it is and what it isn't. BMJ, v. 312, n. 7023, p. 71-72, 1996. DOI: 10.1136/bmj.312.7023.71.
WHITE, B. Alex; MAUPOMÉ, Gerardo. Making clinical decisions for dental care: concepts to consider. Journal of Dental Education, v. 67, n. 9, p. 1087-1094, 2003.
ERICSSON, K. Anders; KRAMPE, Ralf T.; TESCH-RÖMER, Clemens. The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological Review, v. 100, n. 3, p. 363-406, 1993. DOI: 10.1037/0033-295X.100.3.363.
MANGANO, Francesco et al. Intraoral scanners in dentistry: a review of the current literature. BMC Oral Health, v. 17, n. 1, p. 149, 2017. DOI: 10.1186/s12903-017-0442-x.
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