Na rotina odontológica, é comum associar eficiência à redução do tempo de procedimento. Mas um atendimento realmente eficiente é aquele em que o profissional consegue reduzir desperdícios sem transformar o tempo em uma corrida contra o relógio.
A diferença parece pequena, mas muda completamente a forma de pensar o consultório.
Eficiência não é fazer mais movimentos em menos tempo. É eliminar movimentos, esperas e decisões desnecessárias para que a atenção do profissional permaneça onde ela realmente importa: no paciente e no procedimento.
Imagine uma restauração que leva 40 minutos.
O dentista pode ter passado os 40 minutos trabalhando continuamente — ou pode ter perdido vários pequenos intervalos procurando materiais, ajustando equipamentos, reorganizando a bancada, aguardando uma etapa ou interrompendo o procedimento para resolver algo que poderia ter sido preparado antes.
Esses pequenos intervalos são difíceis de perceber individualmente.
Mas, somados ao longo de vários atendimentos, representam uma parcela significativa do tempo clínico.
Estudos sobre produtividade em consultórios odontológicos destacam justamente a importância de simplificar processos, organizar materiais, utilizar trabalho a quatro mãos e estruturar adequadamente o agendamento para melhorar o fluxo de trabalho (GEORGE, 1996).
A pergunta, portanto, não deveria ser:
“Como faço esse procedimento mais rápido?”
Mas:
“Onde estou perdendo tempo que não agrega valor ao procedimento?”
Uma parte importante da eficiência acontece antes do atendimento começar.
Instrumentais, materiais, equipamentos e documentação precisam estar disponíveis no momento em que serão utilizados.
Isso parece básico — justamente por isso costuma ser negligenciado.
A organização prévia reduz a necessidade de interromper o procedimento para buscar recursos e permite que a sequência clínica aconteça com menos rupturas.
No conceito de Odontologia a quatro mãos, por exemplo, a organização do trabalho entre cirurgião-dentista e auxiliar busca reduzir movimentos desnecessários e melhorar a transferência de instrumentos e materiais durante o procedimento (FINKBEINER, 2000).
Não se trata simplesmente de “ter uma auxiliar”. Trata-se de desenhar o trabalho para que cada pessoa saiba o que precisa acontecer e quando.
Aqui existe uma relação que muitas vezes passa despercebida:
um profissional cansado tende a trabalhar em condições menos favoráveis.
Posturas estáticas prolongadas, movimentos repetitivos e posicionamento inadequado são fatores associados aos distúrbios musculoesqueléticos entre cirurgiões-dentistas. Uma revisão sistemática encontrou prevalências anuais de sintomas musculoesqueléticos variando de 68% a 100% entre os estudos avaliados (SOO et al., 2023).
E isso não é apenas uma questão de conforto.
Uma revisão de 2025 que analisou 51 estudos sobre intervenções ergonômicas encontrou efeitos positivos em variáveis relacionadas à saúde musculoesquelética e, em parte dos estudos, também em aspectos de desempenho, como duração dos procedimentos, posicionamento de instrumentos e concentração (SANDOVAL-ALARCÓN et al., 2025).
Por isso:
Ergonomia não é trabalhar de maneira confortável para trabalhar mais. É criar condições para trabalhar melhor e de forma sustentável.
Um atendimento pode ser tecnicamente excelente e ainda apresentar um fluxo ruim.
Por exemplo:
Paciente chega → espera → entra → documentação incompleta → começa o atendimento → falta um material → procedimento é interrompido → paciente precisa aguardar novamente.
Nenhuma dessas etapas, isoladamente, parece catastrófica.
Mas o conjunto gera:
tempo perdido;
maior espera;
mais interrupções;
maior desgaste da equipe;
pior experiência para o paciente.
Por isso, eficiência precisa ser analisada como fluxo, e não apenas como duração do procedimento.
Até fatores aparentemente administrativos podem impactar o fluxo. Sistemas de lembretes, por exemplo, apresentam evidência consistente de melhora na presença dos pacientes e redução de faltas em diferentes contextos de saúde (GUROL-URGANCI et al., 2013).
A tecnologia pode ser uma ferramenta importante de eficiência quando resolve uma etapa que antes consumia tempo.
Um exemplo é o escaneamento intraoral: Uma revisão sistemática que avaliou 17 estudos, incluindo ensaios clínicos randomizados, encontrou que o escaneamento intraoral foi, de modo geral, mais rápido do que moldagens convencionais em diferentes situações protéticas e sobre implantes, além de apresentar preferência dos pacientes em relação ao conforto (MANGANO et al., 2021).
Mas existe uma diferença fundamental: tecnologia mais rápida ≠ atendimento automaticamente mais eficiente.
Se o profissional não domina o equipamento, se o fluxo não está organizado ou se o arquivo precisa ser repetidamente corrigido, parte do ganho pode desaparecer. A tecnologia precisa estar integrada ao processo.
Essa é uma armadilha importante.
Nem todo tempo que não envolve diretamente o procedimento é desperdício.
Explicar o tratamento.
Responder uma dúvida.
Reavaliar uma situação inesperada.
Conversar com o paciente.
Fazer uma pausa para conferir um detalhe clínico.
Tudo isso pode consumir tempo — mas não significa que seja tempo perdido.
Na verdade, um atendimento eficiente precisa preservar espaço para aquilo que exige julgamento profissional.
A eficiência deve retirar o excesso de trabalho operacional para que o profissional tenha mais disponibilidade cognitiva para o trabalho clínico.
Imagine dois atendimentos:
30 minutos de procedimento, três interrupções, material faltando e necessidade de refazer uma etapa.
40 minutos, sem interrupções, sequência organizada e resultado obtido de primeira.
Qual foi mais eficiente?
Provavelmente o segundo.
Por isso, medir apenas tempo de cadeira pode levar a conclusões equivocadas.
Uma avaliação mais interessante considera:
tempo total + interrupções + retrabalho + qualidade + experiência do paciente + desgaste da equipe.
Eficiência é uma relação entre esses elementos.
Prepare.
Confira materiais, instrumentais, equipamentos, documentação e informações necessárias.
Simplifique.
Reduza movimentos desnecessários, interrupções e deslocamentos.
Antecipe.
Pense no próximo passo antes de terminar o atual.
Comunique.
Um fluxo previsível depende de responsabilidades claras.
Explique.
Uma boa comunicação reduz dúvidas, insegurança e interrupções desnecessárias.
Analise.
Pergunte:
Onde perdemos tempo hoje?
Não para trabalhar mais rápido amanhã.
Para trabalhar melhor.
GEORGE, R. J. Improving productivity in the dental practice: a starting point. New Zealand Dental Journal, v. 92, n. 409, p. 73-75, 1996.
FINKBEINER, B. L. Four-handed dentistry revisited. The Journal of Contemporary Dental Practice, v. 1, n. 4, p. 74-86, 2000.
SOO, Suet Yeo et al. Occupational ergonomics and related musculoskeletal disorders among dentists: a systematic review. Work, v. 74, n. 2, p. 469-476, 2023. DOI: 10.3233/WOR-211094.
SANDOVAL-ALARCÓN, Sergio et al. Impact of ergonomic interventions on musculoskeletal health and work performance in dentists and dental students: a scoping review. Applied Ergonomics, v. 129, 104602, 2025. DOI: 10.1016/j.apergo.2025.104602.
MANGANO, Francesco et al. Intraoral scanning reduces procedure time and improves patient comfort in fixed prosthodontics and implant dentistry: a systematic review. Clinical Oral Investigations, 2021.
GUROL-URGANCI, Ipek et al. Digital notifications to improve attendance in clinic: systematic review and meta-analysis. Health Services Research, 2013
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