Um procedimento pode parecer simples na avaliação inicial e ganhar outra dimensão quando o atendimento começa.
A anatomia pode revelar uma variação inesperada. O isolamento pode se tornar difícil. Um tecido pode responder de maneira diferente do esperado. Uma condição clínica pode exigir mudança de conduta. Ou uma informação que parecia secundária pode passar a ser determinante para o tratamento.
Isso acontece porque a decisão clínica odontológica raramente é tomada com informação completa e certeza absoluta. O profissional precisa integrar dados clínicos, exames, experiência e características individuais do paciente para decidir como conduzir cada situação (WHITE; MAUPOMÉ, 2003).
Antes do procedimento, é comum que o dentista construa uma expectativa:
“Este é o problema.”
“Esta é a anatomia.”
“Esta será a melhor abordagem.”
Mas o atendimento fornece informações novas.
E essas informações podem confirmar, complementar ou até modificar a hipótese inicial.
É por isso que planejamento clínico não deve ser confundido com roteiro rígido.
Um bom planejamento precisa permitir que o profissional reconheça quando a realidade encontrada durante o procedimento não corresponde ao cenário previsto.
A literatura sobre tomada de decisão clínica em Odontologia mostra justamente que fatores clínicos, experiência profissional, preferências do paciente, diretrizes e vieses cognitivos participam simultaneamente dessas decisões (ALMUTAIRI et al., 2023).
Um dos exemplos mais claros está na Endodontia: Um molar que parece convencional na radiografia pode apresentar uma configuração de canais bastante diferente daquela esperada.
Uma revisão sistemática sobre o segundo molar inferior permanente encontrou grande variedade no número e na configuração dos canais, com relatos de dois a cinco canais. Os autores destacam que conhecer essa variabilidade é importante para evitar situações como canais não localizados e perfurações (SÁNCHEZ et al., 2022).
Outro estudo sobre o primeiro molar inferior encontrou variações importantes na anatomia radicular e no sistema de canais, ressaltando que essa complexidade pode exigir mudanças no acesso, na localização dos canais, na instrumentação e na desinfecção (CLEGHORN; CHRISTIE; DONG, 2006).
Ou seja:
O caso não ficou complexo porque o tratamento mudou. Ele já era complexo — a complexidade apenas ainda não havia sido revelada.
Existe também a complexidade operacional.
Uma restauração aparentemente pequena pode se tornar desafiadora quando:
o acesso é limitado;
a margem está profunda;
há sangramento;
existe dificuldade de isolamento;
o paciente apresenta pouca abertura bucal;
a região é posterior;
a anatomia impede uma boa visualização.
Isso é especialmente relevante em procedimentos adesivos.
O controle de umidade é um dos fatores importantes para procedimentos restauradores, e a literatura reconhece o papel do isolamento no controle de umidade e microrganismos durante o tratamento restaurador (MIAO et al., 2021).
Na prática, isso significa que a dificuldade técnica pode aparecer antes mesmo de começar a restaurar.
O mesmo procedimento pode ser completamente diferente em dois pacientes.
Idade, abertura bucal, reflexo de vômito, ansiedade, capacidade de permanecer imóvel, condição periodontal, histórico médico e experiência prévia com tratamento odontológico podem modificar a execução.
E isso não é apenas uma questão de conforto.
A literatura sobre emergências médicas em consultório mostra que situações inesperadas podem ocorrer durante o atendimento e que a preparação do profissional para reconhecê-las e manejá-las é parte da prática odontológica segura (PIUS et al., 2023).
Até mesmo uma situação relativamente comum, como a síncope, pode interromper completamente um atendimento planejado. Uma revisão sistemática identificou a síncope como a emergência mais frequente em consultórios odontológicos (MÜLLER et al., 2021).
Por isso, o paciente não é uma variável externa ao procedimento. Ele faz parte do procedimento.
Outro motivo para um caso ganhar complexidade é a diferença entre aquilo que conseguimos visualizar inicialmente e aquilo que realmente existe.
Isso é particularmente evidente em estruturas tridimensionais.
Na Endodontia, por exemplo, a CBCT pode alterar diagnóstico e planejamento em determinados casos complexos. Uma revisão sistemática recente mostrou impacto da CBCT na tomada de decisão, especialmente em situações envolvendo morfologias complexas dos canais e reabsorções radiculares (SILVA et al., 2025).
Isso não significa pedir tomografia para todo mundo.
Significa entender que:
Quando a pergunta clínica exige informação tridimensional, uma imagem bidimensional pode não ser suficiente para representar toda a complexidade anatômica.
Existe uma diferença importante entre: complexidade diagnóstica e complexidade técnica.
Você pode saber exatamente o que precisa fazer e ainda assim encontrar dificuldade para executar.
Um canal pode estar calcificado.
Uma margem pode estar difícil de acessar.
Um isolamento pode não ser previsível.
Uma estrutura anatômica pode estar mais próxima do que o esperado.
Um tecido pode sangrar mais do que o previsto.
Nesses momentos, insistir no plano original simplesmente porque “era um caso simples” pode ser justamente o erro. A conduta precisa acompanhar a informação que surge.
Talvez essa seja a parte mais importante.
Um profissional experiente não é necessariamente aquele que nunca encontra dificuldades.
É aquele que consegue reconhecer quando a dificuldade encontrada ultrapassou o planejamento inicial.
Isso exige capacidade de: parar → reavaliar → identificar a variável → modificar a estratégia.
A tomada de decisão clínica odontológica envolve justamente esse processo de trabalhar com informações incompletas e incerteza, combinando dados científicos com características específicas do paciente e do contexto clínico (WHITE; MAUPOMÉ, 2003).
Por isso, um bom planejamento não serve apenas para dizer como começar.
Ele também precisa preparar o profissional para reconhecer quando o caso deixou de ser aquilo que parecia ser.
A previsibilidade clínica não significa que nada inesperado acontecerá. Significa estar preparado para reconhecer o inesperado e responder a ele com critério.
WHITE, B. Alex; MAUPOMÉ, Gerardo. Making clinical decisions for dental care: concepts to consider. Journal of Dental Education, v. 67, n. 9, p. 1087-1094, 2003.
ALMUTAIRI, H. et al. Determinants of clinical decision making under uncertainty in dentistry: a scoping review. BMC Oral Health, 2023.
SÁNCHEZ, J. A. et al. Root anatomy and canal configuration of human permanent mandibular second molar: a systematic review. 2022.
CLEGHORN, B. M.; CHRISTIE, W. H.; DONG, C. C. S. Root and root canal morphology of the human permanent mandibular first molar: a literature review. Journal of Endodontics, 2006.
MIAO, C. et al. Rubber dam isolation for restorative treatment in dental patients. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2021.
PIUS, Lindsay et al. Emergency protocol in the dental clinic: assessing medical emergency training requirements and guidelines for dentists. Journal of the American Dental Association, v. 154, n. 4, p. 301-310, 2023.
SILVA, et al. Cone beam computed tomography impact on diagnosis, treatment planning and confidence in endodontic decision-making: a systematic review. 2025.
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