Em uma reabilitação oral, é tentador concentrar o planejamento naquilo que conseguimos visualizar com mais facilidade: forma, cor, posição e proporção dentária.
Mas uma restauração não existe isoladamente.
Ela passa a fazer parte de um sistema no qual dentes, periodonto, músculos, articulações temporomandibulares e controle neuromuscular interagem durante a função mastigatória.
Por isso, planejar uma reabilitação sem compreender como aquele sistema funciona é olhar apenas para uma parte do problema.
Quando falamos em oclusão, frequentemente pensamos na relação de contato entre as arcadas.
Mas a função mastigatória é muito mais dinâmica.
A mandíbula realiza movimentos de abertura, fechamento, lateralidade e protrusão, enquanto os músculos mastigatórios e as articulações temporomandibulares participam da coordenação desses movimentos.
Além disso, os contatos dentários variam de acordo com a posição mandibular e a atividade funcional.
Por isso, uma análise oclusal precisa considerar movimento, função e contexto clínico, e não apenas a presença ou ausência de um contato.
Imagine uma coroa, uma onlay ou uma reconstrução extensa.
Clinicamente, ela pode estar perfeita.
Mas, depois de instalada, passa a participar dos contatos e movimentos mandibulares do paciente.
Isso significa que a anatomia restaurada precisa ser planejada considerando:
contatos oclusais;
guias;
espaço disponível;
posição mandibular;
dentes antagonistas;
dentes adjacentes;
padrão funcional do paciente.
A literatura sobre desgaste dentário reforça que sua etiologia é multifatorial, envolvendo fatores mecânicos, químicos e biológicos, e que a interpretação clínica precisa considerar o contexto individual do paciente, e não simplesmente atribuir o desgaste à “oclusão” (LUSSI; CARVALHO, 2014).
Esse é um ponto importante para não transformar o conteúdo em uma visão simplista de oclusão.
Contato oclusal não é sinônimo de trauma.
A presença de um contato ou de uma interferência precisa ser interpretada dentro do contexto clínico.
O conceito de trauma oclusal, por exemplo, está relacionado à lesão ou alteração periodontal decorrente de forças oclusais que excedem a capacidade adaptativa dos tecidos, e não simplesmente à existência de uma força sobre o dente (JEPSEN et al., 2018).
Isso muda a pergunta.
Em vez de:
“Existe um contato?”
O raciocínio passa a ser:
“Esse contato tem relevância clínica dentro da função desse paciente?”
Facetas de desgaste podem fornecer informações importantes sobre o comportamento funcional do sistema.
Mas elas não devem ser interpretadas isoladamente.
O desgaste dentário é resultado da interação de diferentes mecanismos, incluindo atrição, abrasão, abfração e erosão, que podem atuar simultaneamente (LUSSI; CARVALHO, 2014).
Por isso, observar um padrão de desgaste não significa automaticamente concluir:
“O paciente tem bruxismo.”
É preciso integrar história clínica, exame, localização e padrão das alterações.
Essa mesma lógica vale para o planejamento restaurador.
Aqui existe uma confusão bastante comum:
bruxismo não deve ser entendido simplesmente como “problema de oclusão”.
O consenso internacional define bruxismo como uma atividade dos músculos mastigatórios caracterizada por apertamento ou ranger dos dentes, podendo ocorrer durante o sono ou em vigília. A classificação atual também diferencia o comportamento de acordo com sua relação com a saúde e as consequências clínicas (LOBBEZOO et al., 2018).
Isso é importante para a reabilitação porque um paciente com comportamento de bruxismo pode apresentar maior exposição mecânica sobre restaurações, mas isso não significa que a solução seja simplesmente “corrigir a mordida”.
O planejamento precisa considerar o risco individual.
Quando reconstruímos um dente posterior, por exemplo, não estamos apenas preenchendo uma cavidade.
Estamos recriando uma superfície que participará da mastigação.
A anatomia das cúspides, sulcos e cristas precisa conversar com os dentes antagonistas e com os movimentos mandibulares.
Em uma reabilitação extensa, essa preocupação se torna ainda maior.
Quanto maior o número de dentes envolvidos, maior a necessidade de compreender como essas unidades vão funcionar juntas.
É por isso que planejamento funcional pode ser tão importante quanto planejamento estético.
Modelos montados em articulador podem auxiliar na análise das relações intermaxilares e no planejamento de determinadas reabilitações.
Mas nenhum dispositivo reproduz perfeitamente a complexidade do sistema estomatognático.
A literatura mostra que articuladores apresentam diferentes graus de capacidade de reprodução dos movimentos mandibulares e que a escolha deve considerar o objetivo clínico (TORABI et al., 2020).
Por isso, o articulador deve ser entendido como uma ferramenta de análise e planejamento, e não como uma representação absoluta da função do paciente.
O fluxo digital pode acrescentar informações interessantes ao planejamento funcional.
Escaneamentos intraorais permitem registrar as superfícies dentárias e suas relações, enquanto registros de mordida e softwares de planejamento podem auxiliar na visualização tridimensional.
Mas existe uma diferença fundamental:
Visualizar a oclusão digitalmente não significa compreender automaticamente a função do paciente.
O arquivo digital representa uma condição registrada naquele momento. A interpretação continua dependendo do conhecimento clínico.
LUSSI, Adrian; CARVALHO, Thiago S. Erosive tooth wear: a multifactorial condition of growing concern and increasing knowledge. Monographs in Oral Science, v. 25, p. 1-15, 2014. DOI: 10.1159/000359936.
JEPSEN, Søren et al. Periodontal manifestations of systemic diseases and developmental and acquired conditions: consensus report of workgroup 3 of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri-Implant Diseases and Conditions. Journal of Clinical Periodontology, v. 45, Suppl. 20, p. S219-S229, 2018. DOI: 10.1111/jcpe.12951.
LOBBEZOO, Frank et al. International consensus on the assessment of bruxism: report of a work in progress. Journal of Oral Rehabilitation, v. 45, n. 11, p. 837-844, 2018. DOI: 10.1111/joor.12663.
TORABI, Kaveh et al. Accuracy of different types of articulators in reproducing mandibular movements: a systematic review. Journal of Prosthetic Dentistry, 2020.
MANFREDINI, Daniele et al. Theories on possible temporal relationships between sleep bruxism and obstructive sleep apnea syndrome. Sleep Medicine, 2015.
NASSER, M. et al. Occlusal considerations in restorative dentistry: a systematic review. Journal of Oral Rehabilitation, 2020.
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