Em muitos procedimentos restauradores, o isolamento não é apenas uma etapa de organização. Ele tem como objetivo controlar umidade, saliva, sangue, tecidos moles e acesso ao campo operatório — condições que podem interferir diretamente na execução do procedimento restaurador (MIAO et al., 2021).
O isolamento busca criar condições mais previsíveis para a execução clínica, controlando:
saliva;
fluido crevicular;
sangue;
umidade;
língua e bochecha;
acesso e visibilidade;
contaminação do substrato.
Isso ganha importância especialmente em procedimentos adesivos. Uma revisão sistemática sobre contaminação durante procedimentos restauradores mostrou que diferentes contaminantes clínicos podem afetar a resistência de união dependendo da interface adesiva e do momento da contaminação (BOURGI et al., 2023).
Uma revisão mais recente também reforçou que a contaminação clínica pode interferir nas interfaces adesivas e identificou diferenças importantes conforme o contaminante e o sistema adesivo utilizado (CHEN et al., 2024).
Não. A escolha do isolamento começa antes da colocação do lençol de borracha.
O profissional precisa considerar:
Onde está a margem?
Existe sangramento?
O grampo terá estabilidade?
O campo permanecerá acessível durante todo o procedimento?
A matriz poderá ser posicionada adequadamente?
Essas questões determinam se o isolamento será realmente funcional.
Um isolamento que parece adequado no início pode se tornar insuficiente quando o profissional precisa acessar uma margem profunda, realizar procedimentos proximais ou trabalhar em regiões posteriores.
Aqui é importante não simplificar.
A revisão Cochrane de Miao et al. (2021), que reuniu seis estudos e 1.342 participantes, encontrou alguma evidência de menor falha de restaurações com dique de borracha em determinados cenários, especialmente em lesões cervicais não cariosas acompanhadas por seis meses. Entretanto, os estudos apresentavam alto risco de viés e a certeza da evidência foi considerada baixa ou muito baixa (MIAO et al., 2021).
Portanto, seria incorreto afirmar:
“Isolamento absoluto = restauração mais duradoura em qualquer situação.”
A evidência não permite essa conclusão.
Um estudo clínico com acompanhamento de 10 anos também encontrou desempenho clínico satisfatório de restaurações posteriores realizadas tanto com dique de borracha quanto com isolamento por roletes de algodão, sem diferença significativa na performance global (RASKIN et al., 2000).
Isso torna a discussão muito mais interessante:
O isolamento é fundamental para controlar o campo, mas seu impacto sobre a longevidade depende do procedimento, do substrato, da técnica e das condições clínicas.
Porque longevidade não é a única variável que importa.
O controle do campo pode facilitar a execução de etapas críticas, especialmente quando a técnica exige controle rigoroso de umidade.
Em procedimentos adesivos, por exemplo, a contaminação pode alterar a interação entre o substrato e o sistema adesivo (BOURGI et al., 2023; CHEN et al., 2024).
Além disso, o isolamento pode melhorar visibilidade, acesso e controle dos tecidos moles, tornando o procedimento mais previsível para o operador.
Por isso, a pergunta mais interessante não é:
“Dique de borracha é obrigatório?”
É:
“Quais condições o meu procedimento exige para que eu consiga executá-lo adequadamente?”
Existem situações em que ele pode ser tecnicamente difícil ou pouco previsível.
Margens profundas, dentes parcialmente erupcionados, anatomia desfavorável, limitações de abertura bucal e condições periodontais podem exigir estratégias adicionais de controle do campo.
Nesses casos, o objetivo permanece o mesmo:
reduzir a contaminação e manter acesso e visibilidade suficientes para executar o procedimento.
A literatura, inclusive, não demonstra superioridade absoluta do dique de borracha em todos os tipos de restauração. Em um ensaio clínico com restaurações de ionômero de vidro modificado por resina em molares decíduos, não houve diferença significativa na sobrevida após 30 meses entre isolamento com dique e isolamento com roletes de algodão (BRUM et al., 2024).
Nem uma coisa nem outra de forma absoluta.
O isolamento é uma ferramenta de controle do ambiente operatório.
Em determinados procedimentos, especialmente aqueles altamente dependentes de controle de umidade, ele pode ser uma condição extremamente importante para a execução adequada.
Em outros, diferentes métodos de controle podem produzir resultados clinicamente aceitáveis.
O ponto não é transformar o dique de borracha em uma regra universal.
É fazer o dentista entender quando o controle do campo é determinante para aquele procedimento específico.
Isolar não é simplesmente deixar o dente seco. É criar condições para que a técnica planejada possa ser executada com controle.
MIAO, Cheng et al. Rubber dam isolation for restorative treatment in dental patients. Cochrane Database of Systematic Reviews, v. 5, CD009858, 2021. DOI: 10.1002/14651858.CD009858.pub3.
BOURGI, Rim et al. Effect of contamination and decontamination methods on the bond strength of adhesive systems to dentin: a systematic review. Journal of Esthetic and Restorative Dentistry, v. 35, n. 8, p. 1218-1238, 2023. DOI: 10.1111/jerd.13078.
CHEN, Amy Man-Chun et al. A scoping review of the influence of clinical contaminants on bond strength in direct adhesive restorative procedures. Journal of Dentistry, 2024, 104985. DOI: 10.1016/j.jdent.2024.104985.
RASKIN, A. et al. Influence of the isolation method on the 10-year clinical behaviour of posterior resin composite restorations. Clinical Oral Investigations, 2000. DOI: 10.1007/s007840000069.
BRUM, Vanessa Dos Santos et al. The use of rubber dam in the survival of RMGIC restorations in primary molars: a 30-month randomized controlled clinical trial. Brazilian Oral Research, v. 38, e009, 2024. DOI: 10.1590/1807-3107bor-2024.vol38.0009
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