Falar em odontologia digital já não significa apenas falar em scanner intraoral, tomografia, CAD/CAM ou impressão 3D.
Essas tecnologias são partes de um sistema maior.
O verdadeiro fluxo digital começa quando diferentes etapas do tratamento passam a utilizar informações digitais de maneira conectada: dados são capturados, organizados, analisados, utilizados no planejamento e, quando aplicável, transformados em uma solução clínica ou laboratorial.
É justamente essa integração que diferencia ter tecnologias digitais de trabalhar digitalmente (COACHMAN; SESMA; BLATZ, 2021)
Tudo começa com a aquisição dos dados do paciente.
Dependendo do caso, podem ser utilizados:
escaneamento intraoral;
tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT);
fotografias;
escaneamento facial;
registros digitais de oclusão.
O ponto fundamental é a qualidade do dado de entrada. Um fluxo digital sofisticado não corrige automaticamente uma informação inadequada.
Um bom fluxo digital começa antes do software: começa na qualidade da captura.
Depois da captura, diferentes informações podem ser combinadas para oferecer uma visão mais completa do caso.
Um escaneamento intraoral, por exemplo, apresenta informações de superfície, enquanto uma CBCT permite visualizar estruturas tridimensionais. Quando esses dados são integrados adequadamente, podem ampliar as possibilidades de diagnóstico e planejamento.
Esse princípio também está presente no desenvolvimento do chamado paciente virtual 3D, que busca reunir diferentes registros digitais em uma representação tridimensional do paciente (LAWAND et al., 2026).
Digitalizar é capturar. Digitalizar e integrar é começar a construir um fluxo.
Com os dados organizados, eles podem ser utilizados para planejamento clínico e laboratorial.
Dependendo do procedimento, isso pode envolver:
planejamento implantodôntico;
planejamento restaurador;
ortodontia;
desenho de restaurações;
guias cirúrgicos;
simulações.
Na implantodontia, por exemplo, diferentes dados digitais podem ser utilizados conjuntamente para apoiar um planejamento mais individualizado (BLATZ; COACHMAN, 2023).
Aqui está uma das grandes mudanças proporcionadas pelo digital:algumas decisões podem ser avaliadas antes da execução clínica.
Mas o software não substitui o profissional. A tecnologia fornece dados e ferramentas; a interpretação e a decisão continuam sendo clínicas.
O planejamento pode então alimentar diferentes etapas de produção ou execução, utilizando tecnologias como CAD (Computer-Aided Design), CAM (Computer-Aided Manufacturing), fresagem e impressão 3D.
Mas o fluxo não termina quando a peça é produzida ou o procedimento é realizado.
É preciso validar o resultado.
Precisão, adaptação, função, estética e outros parâmetros precisam ser avaliados de acordo com o caso.
A literatura mostra resultados promissores para diferentes aplicações dos fluxos digitais, mas também evidencia que seu desempenho pode variar conforme o procedimento, a tecnologia e o protocolo utilizado (BERNAUER; ZITZMANN; JODA, 2023).
Não é a quantidade de equipamentos digitais dentro da clínica.
É a qualidade da conexão entre as etapas.
Uma tecnologia pode ser excelente individualmente. Seu verdadeiro potencial aparece quando a informação produzida por ela consegue ser aproveitada no restante do processo.
O objetivo da odontologia digital não é apenas transformar processos analógicos em digitais. É transformar dados em informação útil para planejar e executar o cuidado.
BERNAUER, Selina A.; ZITZMANN, Nicola U.; JODA, Tim. The complete digital workflow in fixed prosthodontics updated: a systematic review. Healthcare, v. 11, n. 5, p. 679, 2023.
BLATZ, Markus B.; COACHMAN, Christian. The complete digital workflow in implant dentistry. Compendium of Continuing Education in Dentistry, v. 44, n. 7, p. 416, 2023.
COACHMAN, Christian; SESMA, Newton; BLATZ, Markus B. The complete digital workflow in interdisciplinary dentistry. International Journal of Esthetic Dentistry, v. 16, n. 1, p. 34-49, 2021.
LAWAND, Ghida et al. Techniques and accuracy for aligning facial and intraoral digital scans to integrate a 3-dimensional virtual patient: a systematic review. The Journal of Prosthetic Dentistry, v. 135, n. 3, p. 484-504, 2026.
Explore outros conteúdos, aprofunde seus conhecimentos e descubra novas possibilidades para sua carreira.