Nem toda dor que o paciente localiza em um dente tem origem naquele dente. Reconhecer essa diferença pode evitar procedimentos irreversíveis e mudar completamente a condução do caso.
A dor odontogênica é extremamente comum na prática clínica e, na maioria das vezes, realmente está relacionada a estruturas dentárias ou periodontais. O problema aparece quando o local percebido da dor e sua verdadeira origem não coincidem.
Dor miofascial, disfunções temporomandibulares, alterações neuropáticas, sinusopatias e dores neurovasculares podem se manifestar como “dor de dente” (THOMAS et al., 2026; ZAIDAN et al., 2020).
E aqui está o grande desafio clínico:
Tratar o local da dor sem identificar sua origem pode significar tratar o dente errado.
A localização relatada pelo paciente é uma informação importante, mas não deve ser utilizada isoladamente para estabelecer o diagnóstico.
A dor orofacial pode ser referida, fazendo com que o paciente perceba a sensação em uma região diferente daquela em que o estímulo doloroso se origina. Por isso, história clínica, exame, testes pulpares e exames de imagem precisam ser interpretados conjuntamente (EHRMANN, 2002).
Um exemplo clássico é o paciente que chega dizendo:
“É esse molar aqui.”
Mas, ao investigar, o profissional não encontra uma alteração compatível com a intensidade, duração ou padrão da dor.
Nesse momento, a ausência de uma causa odontológica convincente também é um achado diagnóstico.
Alguns padrões não combinam bem com uma origem odontogênica típica.
Entre os sinais de alerta descritos na literatura estão:
dor persistente e pouco variável;
sensação de queimação;
dor mal localizada;
múltiplos dentes envolvidos;
ausência de uma causa dental compatível;
persistência da dor após tratamento odontológico adequado;
ausência de resposta após anestesia do dente suspeito (OKESON, 2000; ZAKRZEWSKA; MCMILLAN, 2011).
Isso não significa que qualquer um desses sinais descarte uma origem dentária.
Significa que eles devem aumentar a atenção para o diagnóstico diferencial.
O espectro de diagnósticos diferenciais é amplo.
Dor miofascial pode ser referida para dentes.
Alterações da articulação temporomandibular podem produzir dor percebida na região dentária.
Neuralgias e outras dores neuropáticas podem apresentar características muito diferentes da dor pulpar convencional.
Sinusopatias também podem produzir dor referida para dentes superiores.
E existem causas ainda menos intuitivas, incluindo dores neurovasculares e, em situações específicas, dor de origem cardíaca (THOMAS et al., 2026; SCHAMES et al., 2016).
Por isso, quando a história e o exame não “fecham” com o dente indicado pelo paciente, o raciocínio precisa se expandir.
Esse talvez seja o ponto mais importante para a prática clínica.
Se o profissional não identifica a origem da dor, mas decide tratar o dente apenas porque ele parece ser o mais provável, pode acabar realizando um procedimento que não trata a causa real.
Isso é particularmente relevante em Endodontia.
Uma revisão sistemática encontrou que, entre estudos que avaliaram pacientes com dor persistente após tratamento endodôntico, uma parcela relevante dos casos apresentava origem não odontogênica; em uma análise agrupada, 56% dos casos avaliados quanto à etiologia foram considerados não odontogênicos (NIXDORF et al., 2010).
Em uma investigação da rede de pesquisa clínica odontológica, entre pacientes que apresentavam dor seis meses após tratamento endodôntico, 42% receberam diagnóstico de dor não odontogênica, sendo a dor referida associada a disfunção temporomandibular a causa não odontogênica mais frequente naquele grupo (NIXDORF et al., 2015).
Isso não significa que tratamento endodôntico cause dor não odontogênica.
Significa que a persistência da dor após o tratamento exige reavaliação diagnóstica, e não necessariamente outro procedimento no mesmo dente.
O raciocínio clínico mais seguro começa antes da escolha do procedimento.
A história da dor é compatível com a hipótese odontogênica?
O exame clínico confirma essa hipótese?
Os testes pulpares reproduzem ou explicam a queixa?
Os achados radiográficos são compatíveis?
Existe uma relação coerente entre os achados e a intensidade da dor?
A anestesia local modifica a dor?
Existe alguma informação que contradiga a hipótese inicial?
Quando essas respostas não convergem, talvez a decisão mais adequada seja não intervir imediatamente e ampliar a investigação.
Uma revisão de 2020 sobre diagnóstico diferencial de dor de dente destaca justamente que reconhecer condições não odontogênicas é essencial para evitar tratamentos dentários desnecessários e irreversíveis (ZAIDAN et al., 2020).
E uma revisão de 2024 reforça que pacientes com dor dentoalveolar persistente precisam de investigação sistemática de causas odontogênicas e não odontogênicas antes de novos tratamentos irreversíveis (KOLBINSON; GOULET, 2024).
Quando o paciente aponta para um dente, não pense imediatamente:
“Qual procedimento esse dente precisa?”
Pense primeiro:
“O que explica essa dor?”
Porque existe uma diferença enorme entre:
localizar a dor
e
identificar sua origem.
O dente pode ser realmente a fonte.
Mas também pode ser apenas o lugar onde o paciente percebe uma dor que nasceu em outro ponto do sistema orofacial.
O melhor tratamento para uma dor mal diagnosticada pode ser nenhum tratamento odontológico — pelo menos até que sua origem seja esclarecida.
E talvez essa seja uma das habilidades mais importantes de um clínico:
saber não apenas quando tratar, mas quando parar, investigar e reconsiderar o diagnóstico.
THOMAS, Davis C. et al. Toothaches of Non-odontogenic Origin. Dental Clinics of North America, v. 70, n. 1, p. 209-224, 2026. DOI: 10.1016/j.cden.2025.07.013.
ZAIDAN, N. et al. Differential diagnosis of toothache to prevent erroneous and unnecessary dental treatment. Journal of Oral Rehabilitation, 2020. DOI: 10.1111/joor.12946.
EHRMANN, E. H. The diagnosis of referred orofacial dental pain. Australian Endodontic Journal, v. 28, n. 2, p. 75-81, 2002. DOI: 10.1111/j.1744-4477.2002.tb00388.x.
NIXDORF, Donald R. et al. Frequency of nonodontogenic pain after endodontic therapy: a systematic review and meta-analysis. Journal of Endodontics, 2010. DOI: 10.1016/j.joen.2010.06.020.
NIXDORF, Donald R. et al. Differential diagnoses for persistent pain after root canal treatment: a study in the National Dental Practice-based Research Network. Journal of Endodontics, 2015.
KOLBINSON, Dean A.; GOULET, Jean-Paul Name. Persistent Toothache Despite Multiple Dental-related Treatments: How Could this Be? Journal of the Canadian Dental Association, v. 90, 2024.
SCHAMES, Scott E. et al. Nonodontogenic Sources of Dental Pain. Journal of the California Dental Association, v. 44, n. 8, p. 507-513, 2016.
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