Um bom plano precisa considerar simultaneamente condição sistêmica, saúde periodontal, anatomia, tecidos peri-implantares, posição protética e estratégia cirúrgica. O implante é apenas uma parte de um tratamento que precisa funcionar biologicamente e proteticamente no longo prazo.
Use este checklist antes de definir a posição e a estratégia cirúrgica.
Antes de olhar para o sítio cirúrgico, avalie o paciente.
Considere:
condição sistêmica;
medicamentos em uso;
controle metabólico;
histórico de tabagismo;
higiene oral;
expectativa em relação ao tratamento;
capacidade de aderir às consultas de manutenção.
Não se trata de criar uma lista de “contraindicações” genéricas, mas de identificar fatores que podem modificar risco, planejamento ou prognóstico.
A literatura recente aponta periodontite e tabagismo como importantes indicadores de risco para doenças peri-implantares; diabetes também aparece entre os fatores associados em análises recentes (SERRONI et al., 2024; ROKN et al., 2025).
Implante não deve ser utilizado para “resolver” uma boca que ainda apresenta doença periodontal ativa.
Avalie:
sangramento à sondagem;
profundidade de sondagem;
controle de biofilme;
dentes remanescentes;
prognóstico periodontal;
histórico de periodontite.
Uma história de periodontite está associada a maior risco de peri-implantite e, segundo uma meta-análise de estudos prospectivos publicada em 2024, também a maior risco de perda de implantes e maior perda óssea marginal (SERRONI et al., 2024).
O planejamento do implante começa, portanto, pelo controle da doença.
Antes de pensar onde colocar o implante, defina onde a restauração precisa estar.
Avalie:
espaço mesiodistal;
espaço interoclusal;
posição dos dentes adjacentes;
relação oclusal;
eixo da futura restauração;
espaço para componentes protéticos;
perfil de emergência.
A posição do implante deve ser prosteticamente orientada, e não determinada apenas pela quantidade de osso disponível.
Especialmente em áreas estéticas, não basta perguntar: “Tenho osso suficiente?”
É necessário avaliar também:
espessura do fenótipo peri-implantar;
faixa de mucosa queratinizada;
posição da margem gengival;
papilas;
volume vestibular;
necessidade de manejo ou aumento de tecidos.
A literatura mostra que espessura e largura dos tecidos peri-implantares são componentes relevantes para a saúde e estabilidade dos tecidos ao redor dos implantes (TAVELLI et al., 2021).
Osso sustenta o implante. Tecidos moles condicionam grande parte do resultado peri-implantar e estético.
Quando indicada, a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) permite avaliar dimensões ósseas e relações com estruturas anatômicas relevantes para o planejamento.
Observe:
altura óssea;
espessura vestibulolingual;
morfologia do rebordo;
cortical vestibular e lingual;
canal mandibular;
forame mentual;
seio maxilar;
cavidade nasal;
outras estruturas relevantes ao sítio.
Mas atenção: a imagem tridimensional não substitui o exame clínico.
A precisão das mensurações em CBCT também possui limitações e deve ser interpretada dentro do contexto clínico (FOKAS et al., 2018).
Agora junte as informações.
Pergunte:
Onde o implante deve ficar?
Não apenas:
Onde ele cabe?
Avalie simultaneamente:
posição protética + anatomia óssea + estruturas anatômicas + tecidos peri-implantares + eixo do implante.
É aqui que o planejamento tridimensional se torna particularmente útil: ele permite visualizar relações que seriam mais difíceis de avaliar quando cada informação é analisada isoladamente.
Um planejamento pode ser excelente virtualmente e ainda apresentar dificuldades na cirurgia.
Antes de definir a estratégia, considere:
acesso cirúrgico;
abertura bucal;
visibilidade;
estabilidade do guia, quando utilizado;
necessidade de osteotomia;
necessidade de enxertia;
estabilidade primária esperada;
possibilidade de intercorrências anatômicas.
A precisão da cirurgia assistida por computador também é influenciada por fatores como tipo de guia, fixação e protocolo cirúrgico (ZHOU et al., 2018).
A cirurgia guiada pode melhorar a transferência do planejamento para a posição implantodôntica em determinadas situações.
Mas “guiada” não significa “infalível”.
Meta-análises demonstram desvios entre a posição planejada e a posição efetivamente obtida mesmo em cirurgia assistida por computador (TAHMASEB et al., 2018; DUTTA et al., 2025).
Portanto, avalie a indicação considerando complexidade do caso, anatomia, necessidade de precisão e experiência da equipe.
O tratamento não termina quando o implante é instalado.
Antes da cirurgia, já deve existir uma visão do que acontecerá depois:
tipo de prótese;
acesso para higiene;
possibilidade de manutenção;
controle oclusal;
acompanhamento peri-implantar;
periodicidade das consultas.
A manutenção preventiva é particularmente importante porque ausência de acompanhamento, periodontite e outros fatores estão associados a maior risco de doenças peri-implantares (ROKN et al., 2025).
Essa é uma pergunta que diferencia planejamento de simples execução.
Antes da cirurgia, identifique:
“O que eu faço se a realidade clínica não corresponder ao planejamento?”
Por exemplo:
volume ósseo diferente do esperado;
estabilidade primária insuficiente;
dificuldade de acesso;
necessidade de alterar a posição;
necessidade de procedimento regenerativo;
impossibilidade de executar a estratégia inicialmente planejada.
Um bom planejamento não prevê apenas o cenário ideal. Ele antecipa as variáveis que podem exigir mudança de conduta.
DUTTA, Debanwita et al. Comparison of accuracy of dental implant placement between freehand and guided implant surgery: a systematic review and meta-analysis. Journal of Maxillofacial and Oral Surgery, v. 24, n. 4, p. 865-876, 2025. DOI: 10.1007/s12663-025-02579-0.
FOKAS, George et al. Accuracy of linear measurements on CBCT images related to presurgical implant treatment planning: a systematic review. Clinical Oral Implants Research, v. 29, supl. 16, p. 393-415, 2018. DOI: 10.1111/clr.13142.
ROKN, A. et al. Risk factors for peri-implantitis: an umbrella review of meta-analyses of observational studies and assessment of biases. Journal of Clinical Periodontology, 2024.
SERRONI, Matteo et al. History of periodontitis as a risk factor for implant failure and incidence of peri-implantitis: a systematic review, meta-analysis, and trial sequential analysis of prospective cohort studies. Clinical Implant Dentistry and Related Research, v. 26, n. 3, p. 482-508, 2024. DOI: 10.1111/cid.13330.
TAHMASEB, Ali; WU, Viviane; WISMEIJER, Daniel; COUCKE, Wim; EVANS, Christopher. The accuracy of static computer-aided implant surgery: a systematic review and meta-analysis. Clinical Oral Implants Research, v. 29, supl. 16, p. 416-435, 2018. DOI: 10.1111/clr.13346.
TAVELLI, Lorenzo et al. Peri-implant soft tissue phenotype modification and its impact on peri-implant health: a systematic review and network meta-analysis. Journal of Periodontology, v. 92, n. 1, p. 21-44, 2021. DOI: 10.1002/JPER.19-0716.
ZHOU, Wenjuan et al. Clinical factors affecting the accuracy of guided implant surgery: a systematic review and meta-analysis. Journal of Evidence-Based Dental Practice, 2018. DOI: 10.1016/j.jebdp.2017.07.007.
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