“Você range os dentes?” parece uma pergunta simples. Mas explicar o que o bruxismo significa para aquele paciente é muito mais complexo.
Bruxismo não deve ser tratado simplesmente como uma doença que precisa ser “eliminada”. O consenso internacional atual define o bruxismo como uma atividade dos músculos mastigatórios, que pode ocorrer durante o sono ou em vigília, e destaca que, em indivíduos saudáveis, ele deve ser entendido como um comportamento que pode representar fator de risco — e, em determinadas situações, até ter efeitos protetores — para algumas consequências clínicas (LOBBEZOO et al., 2018).
Por isso, talvez a conversa mais importante com o paciente não seja:
“Você tem bruxismo.”
Mas:
“Vamos entender o que esse comportamento significa no seu caso.”
Ranger ou apertar os dentes pode estar associado a desgaste dentário, fraturas de dentes ou restaurações e dor musculoesquelética, mas a presença de bruxismo não significa que essas consequências necessariamente acontecerão (KOYANO et al., 2008; LOBBEZOO et al., 2018).
Essa distinção é importante porque o paciente frequentemente chega com uma associação direta:
“Eu tenho bruxismo → meus dentes vão quebrar.”
Não é tão simples.
O risco depende de diversos fatores: intensidade e padrão da atividade muscular, características individuais dos dentes, restaurações presentes, exposição a ácidos, qualidade do substrato e outros fatores biológicos e comportamentais.
Uma revisão abrangente das revisões sistemáticas encontrou evidência inconclusiva para várias consequências dentárias do bruxismo, embora tenha identificado plausibilidade para complicações biomecânicas em implantes (MACHADO et al., 2019).
O papel do dentista é avaliar risco, não criar medo.
Esse talvez seja um dos pontos que mais merece ser explicado.
Encontrar facetas de desgaste não permite concluir, sozinho:
“Esse paciente tem bruxismo.”
O desgaste dentário é multifatorial. Processos mecânicos e químicos podem atuar simultaneamente, e erosão, por exemplo, pode contribuir para a perda de estrutura dental independentemente do bruxismo (CARVALHO et al., 2016).
Uma revisão publicada em 2024 especificamente sobre a relação entre desgaste dentário e bruxismo mostrou que a literatura é heterogênea e que a associação entre os dois não deve ser interpretada de maneira simplista (BRONKHORST et al., 2024).
Então, diante de um dente desgastado, o raciocínio deveria ser:
Qual é a etiologia?
Qual é a velocidade de progressão?
Existe atividade de bruxismo?
Existem fatores erosivos ou abrasivos?
Há sinais de sobrecarga?
E não simplesmente:
“É bruxismo.”
Aqui a conversa fica particularmente importante para a Odontologia restauradora.
Um paciente com bruxismo pode apresentar maior exposição mecânica sobre restaurações, mas a relação entre bruxismo e falha restauradora não é igual para todos os materiais e situações clínicas.
Uma revisão de escopo publicada em 2025 encontrou associação entre bruxismo e falha de algumas restaurações, mas também destacou heterogeneidade importante entre os estudos e diferentes comportamentos conforme o tipo de restauração (AL-TALIB et al., 2025).
Para restaurações cerâmicas, uma meta-análise encontrou resultados diferentes conforme o tipo de restauração analisada e classificou a certeza geral da evidência como muito baixa (MELO et al., 2018).
Por isso, dizer ao paciente:
“Você tem bruxismo, então não pode fazer restauração estética.”
é uma simplificação.
A pergunta mais adequada é:
“Qual é o risco mecânico desse paciente e como ele deve ser considerado no planejamento restaurador?”
Isso pode influenciar material, desenho restaurador, espessura, extensão da reabilitação, acompanhamento e estratégias de proteção, dependendo do caso.
Outro erro frequente é transformar uma associação em causalidade.
Bruxismo pode estar associado a sinais e sintomas musculoesqueléticos, mas isso não significa que todo paciente com bruxismo desenvolverá disfunção temporomandibular ou dor.
O consenso internacional recomenda justamente interpretar o bruxismo como um comportamento que pode funcionar como fator de risco ou proteção, dependendo do contexto (LOBBEZOO et al., 2018).
Uma revisão sistemática recente sobre bruxismo em vigília descreve possíveis consequências como desgaste, fraturas de restaurações e dor relacionada à sobrecarga musculoesquelética, mas também ressalta a ausência de diretrizes oficiais específicas para seu manejo (2026).
Portanto:
bruxismo ≠ DTM
bruxismo ≠ dor
bruxismo ≠ desgaste
Mas o comportamento pode participar dessas condições em determinados pacientes.
Talvez a melhor conversa seja aquela que troca medo por monitoramento.
Em vez de:
“Você tem bruxismo e precisa proteger seus dentes.”
Explicar:
“Você apresenta sinais compatíveis com uma atividade de bruxismo. Vamos acompanhar se ela está produzindo alguma consequência clínica e avaliar seu risco individual.”
Isso muda tudo.
O paciente precisa entender que o acompanhamento pode envolver:
observação de desgaste;
avaliação de fraturas e restaurações;
investigação de dor muscular ou articular;
identificação de hábitos de apertamento;
avaliação de fatores associados;
acompanhamento da evolução ao longo do tempo.
E, principalmente, que o diagnóstico e a avaliação do bruxismo não dependem apenas de perguntar se a pessoa range os dentes. O consenso internacional reconhece diferentes níveis de avaliação e recomenda interpretar a atividade de bruxismo dentro de um continuum, em vez de utilizar um simples “tem/não tem” (LOBBEZOO et al., 2018).
O paciente não precisa sair do consultório acreditando que:
“Meu bruxismo vai acabar com meus dentes.”
Ele precisa sair entendendo:
“Existe uma atividade muscular que pode aumentar determinadas cargas sobre meu sistema mastigatório. Meu dentista vai avaliar se isso está produzindo consequências no meu caso e acompanhar sua evolução.”
Essa diferença parece pequena.
Clinicamente, não é.
Porque o objetivo não é diagnosticar para assustar.
É diagnosticar para estratificar risco, orientar e acompanhar.
Bruxismo não deve ser tratado apenas como um inimigo dos dentes. O mais importante é compreender o comportamento, identificar suas possíveis consequências e decidir o que realmente precisa ser feito para aquele paciente.
LOBBEZOO, Frank et al. International consensus on the assessment of bruxism: Report of a work in progress. Journal of Oral Rehabilitation, v. 45, n. 11, p. 837-844, 2018. DOI: 10.1111/joor.12663.
KOYANO, K. et al. Assessment of bruxism in the clinic. Journal of Oral Rehabilitation, v. 35, n. 7, p. 495-508, 2008. DOI: 10.1111/j.1365-2842.2008.01880.x.
MACHADO, Eduardo et al. Bruxism: An umbrella review of systematic reviews. Journal of Oral Rehabilitation, v. 46, n. 7, p. 666-690, 2019. DOI: 10.1111/joor.12801.
BRONKHORST, H. et al. Tooth wear and bruxism: A scoping review. Journal of Dentistry, v. 143, 104983, 2024. DOI: 10.1016/j.jdent.2024.104983.
AL-TALIB, Tanya et al. Bruxism and direct and indirect restorations failure: A scoping review. Journal of Dentistry, v. 157, 105738, 2025. DOI: 10.1016/j.jdent.2025.105738.
MELO, Gilberto de Souza et al. Association of sleep bruxism with ceramic restoration failure: A systematic review and meta-analysis. Journal of Prosthetic Dentistry, v. 119, n. 3, p. 354-362, 2018. DOI: 10.1016/j.prosdent.2017.07.005.
CARVALHO, Thiago S. et al. Consensus Report of the European Federation of Conservative Dentistry: Erosive tooth wear – diagnosis and management. Swiss Dental Journal, v. 126, n. 4, p. 342-346, 2016. DOI: 10.61872/sdj-2016-04-143
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