O preparo químico-mecânico é uma das etapas centrais do tratamento endodôntico, mas os instrumentos não conseguem tocar todas as superfícies do sistema de canais radiculares. Istmos, irregularidades, canais laterais, ramificações e áreas de difícil acesso podem permanecer fora do contato direto da instrumentação.
É justamente nesse cenário que a ativação da solução irrigadora ganha importância. Em vez de apenas levar o irrigante ao canal, busca-se melhorar sua dinâmica dentro desse espaço complexo (CĂPUȚĂ et al., 2019).
A irrigação convencional depende da introdução e renovação do irrigante por meio de uma seringa e agulha. Entretanto, sua capacidade de alcançar determinadas regiões do sistema de canais é limitada.
Na ativação ultrassônica, a energia transmitida ao irrigante promove movimento do líquido e fenômenos hidrodinâmicos, aumentando sua interação com as paredes do canal. Um dos mecanismos mais discutidos é o acoustic streaming, ou fluxo acústico, no qual a oscilação ultrassônica produz correntes no irrigante e aumenta as forças de cisalhamento junto às superfícies (CĂPUȚĂ et al., 2019).
Não basta colocar o irrigante dentro do canal. É preciso favorecer sua circulação e renovação onde a instrumentação não consegue atuar diretamente.
A PUI (Passive Ultrasonic Irrigation, irrigação ultrassônica passiva) utiliza uma lima ou ponta ultrassônica oscilando dentro de um canal preenchido com solução irrigadora, sem que o objetivo seja realizar o preparo mecânico das paredes.
A proposta é utilizar a energia ultrassônica para potencializar a ação do irrigante, e não substituir a instrumentação convencional.
O NaOCl (hipoclorito de sódio) é amplamente utilizado na Endodontia por sua atividade antimicrobiana e capacidade de dissolução de tecido orgânico.
Entretanto, a ação do irrigante depende também de sua capacidade de entrar em contato com regiões que precisam ser descontaminadas. A ativação ultrassônica pode favorecer a ação do hipoclorito ao melhorar a dinâmica da solução dentro do sistema de canais (MOZO et al., 2012).
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:
“Qual irrigante estou usando?”
Mas também:
“Como estou fazendo esse irrigante alcançar e atuar dentro do sistema de canais?”
Aqui a literatura fica particularmente interessante.
Uma revisão sistemática e meta-análise avaliou diferentes técnicas de ativação quanto à penetração do hipoclorito em canais laterais. Nos canais retos avaliados, as técnicas de ativação apresentaram maior penetração do NaOCl em comparação com a irrigação convencional, com a PUI apresentando desempenho favorável entre as técnicas estudadas (KUMAR et al., 2023).
Isso ajuda a explicar o racional clínico: mais movimento do irrigante → maior contato com áreas de difícil acesso → potencialmente melhor ação química.
Mas existe uma ressalva importante:
Maior penetração não significa automaticamente maior sucesso clínico.
Grande parte dos estudos que avaliam penetração e limpeza são laboratoriais. O comportamento dentro de um dente real é muito mais complexo.
Os resultados são promissores, mas precisam ser interpretados com cuidado.
Uma revisão sistemática encontrou evidências de redução microbiana com irrigação ultrassonicamente ativada, embora os estudos apresentassem heterogeneidade e limitações metodológicas (CĂPUȚĂ et al., 2019).
Por outro lado, uma revisão sistemática que comparou PUI e irrigação convencional não encontrou diferença estatisticamente significativa na análise microbiológica combinada, reforçando que os resultados ainda não permitem tratar a PUI como uma solução universal (MOREIRA et al., 2019).
Ou seja, a ciência não permite transformar a ativação ultrassônica em uma promessa simplista de:
“mais ultrassom = tratamento mais bem-sucedido”.
A evidência é mais interessante do que isso.
Uma meta-análise publicada em 2024 reuniu três ensaios clínicos randomizados, totalizando 474 pacientes e 501 dentes. Nesse conjunto de estudos, a PUI apresentou maior taxa de cicatrização periapical em comparação à irrigação convencional. Os próprios autores, entretanto, destacaram a quantidade limitada de ensaios clínicos disponíveis (PEIXOTO et al., 2024).
Isso é muito mais útil para o clínico do que simplesmente afirmar que “o ultrassom melhora a limpeza”.
Existe um sinal clínico favorável, mas ainda há espaço para pesquisas clínicas mais robustas.
Não.
A ativação ultrassônica é uma estratégia auxiliar de irrigação.
Ela não substitui:
acesso adequado;
localização dos canais;
preparo químico-mecânico;
irrigação eficiente;
controle do comprimento de trabalho;
renovação do irrigante;
controle da infecção;
obturação adequada.
Seu valor está justamente em complementar aquilo que a instrumentação mecânica não consegue alcançar diretamente.
A ativação depende da interação entre dispositivo, ponta, irrigante, anatomia do canal e protocolo clínico.
Por isso, o equipamento não deve ser visto simplesmente como uma fonte de vibração.
A frequência de oscilação, amplitude, desenho da ponta, posicionamento e condições do canal participam da energia transmitida ao irrigante e da dinâmica produzida durante a ativação (CĂPUȚĂ et al., 2019).
É aqui que a tecnologia encontra a técnica.
O equipamento fornece a energia.
O endodontista decide como, onde e por que utilizá-la.
O objetivo da ativação ultrassônica não é simplesmente “limpar mais”.
É melhorar a dinâmica do irrigante dentro de uma anatomia que é muito mais complexa do que o formato do instrumento utilizado para prepará-la.
A evidência atual aponta benefícios em parâmetros como penetração do irrigante e, em alguns estudos, redução microbiana e cicatrização periapical. Entretanto, os resultados clínicos ainda não justificam tratar a PUI como garantia de sucesso.
O instrumento molda o espaço. O irrigante atua quimicamente. A ativação melhora a dinâmica dessa solução. E o endodontista integra tudo isso em uma estratégia de desinfecção.
CĂPUȚĂ, Petruţa E. et al. Ultrasonic irrigant activation during root canal treatment: a systematic review. Journal of Endodontics, v. 45, n. 1, p. 31-44.e13, 2019.
KUMAR, Ram Surath et al. Effectiveness of various irrigant activation techniques on the penetration of sodium hypochlorite into lateral canals of mature permanent teeth: a systematic review and meta-analysis. Saudi Dental Journal, v. 35, n. 1, p. 1-23, 2023.
MOZO, Susana et al. Effect of passive ultrasonic irrigation on the mechanical properties of sodium hypochlorite-treated dentin. Journal of Endodontics, 2012.
MOREIRA, Rafaela Nogueira et al. Passive ultrasonic irrigation in root canal: systematic review and meta-analysis. Acta Odontologica Scandinavica, v. 77, n. 1, p. 55-60, 2019.
PEIXOTO, Lucas et al. Impact of passive ultrasonic irrigation on the outcome of non-surgical root canal treatment: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. 2024.
Explore outros conteúdos, aprofunde seus conhecimentos e descubra novas possibilidades para sua carreira.