Em uma restauração adesiva, é tentador pensar que o sucesso depende principalmente de escolher um bom sistema adesivo.
Na realidade, a adesão à dentina é resultado da interação entre substrato, estratégia adesiva, composição do material, técnica operatória e condições clínicas. E é justamente por isso que dois profissionais utilizando o mesmo adesivo podem obter resultados diferentes.
A primeira diferença fundamental é entender que aderir à dentina é mais complexo do que aderir ao esmalte.
A dentina possui maior conteúdo orgânico e é naturalmente úmida, além de apresentar túbulos dentinários e uma estrutura que varia conforme profundidade e condição do tecido. Quando o dente é preparado, forma-se ainda a smear layer, uma camada de resíduos resultante da instrumentação que modifica a superfície disponível para adesão.
Ou seja: antes mesmo de aplicar o adesivo, já existem variáveis capazes de interferir na interação entre o sistema adesivo e o substrato.
Os sistemas adesivos podem trabalhar utilizando diferentes estratégias, incluindo etch-and-rinse (condicionamento e lavagem) e self-etch (autocondicionante).
Com os chamados adesivos universais, o profissional pode escolher diferentes modos de aplicação. Mas cuidado com a ideia de que existe um protocolo universalmente superior.
Uma meta-análise de estudos laboratoriais encontrou diferenças entre estratégias dependendo da composição do adesivo e do substrato. Para alguns adesivos universais, o condicionamento prévio do esmalte pode melhorar a adesão, enquanto os resultados em dentina são mais dependentes do sistema utilizado. E quando olhamos para desfechos clínicos, a história pode ser diferente.
Uma meta-análise de ensaios clínicos encontrou melhor retenção, adaptação marginal e menor descoloração marginal para determinadas aplicações em etch-and-rinse em comparação ao self-etch.
Portanto:
Não escolha a estratégia apenas pela fama do protocolo. Considere o adesivo, o substrato e a situação clínica.
Uma das maiores fontes de erro é tratar a aplicação do adesivo como uma etapa mecânica: aplica → espera → sopra → fotopolimeriza.
Mas os sistemas adesivos precisam de tempo e interação adequados com a superfície dentinária.
Uma revisão sistemática e meta-análise encontrou aumento da resistência de união de adesivos universais à dentina com estratégias como maior tempo de aplicação, técnica de fricção (scrubbing), aplicação de múltiplas camadas, maior tempo de fotopolimerização e algumas estratégias adicionais. Os autores, entretanto, ressaltam a elevada heterogeneidade dos estudos, muitos deles in vitro.
Isso traz uma mensagem clínica simples:
O adesivo precisa ser aplicado de acordo com o protocolo do fabricante — e não de acordo com a pressa do operador.
A dentina não deve ser tratada como uma superfície que precisa estar simplesmente “seca”.
Depois do condicionamento, especialmente nos sistemas etch-and-rinse, o controle da umidade passa a ser crítico. Dentina excessivamente seca pode alterar a condição da rede de colágeno.
Excesso de água, por outro lado, pode dificultar a infiltração adequada dos componentes do adesivo e favorecer sua diluição. O objetivo é obter uma superfície compatível com o sistema adesivo utilizado.
E aqui existe uma regra importante:
Não existe “umidade ideal” universal. Existe a condição de substrato compatível com aquela estratégia adesiva.
Dois produtos classificados como “adesivos universais” não são necessariamente iguais.
Eles podem apresentar diferenças em:
monômeros funcionais;
solventes;
concentração de componentes;
pH;
caráter hidrofílico/hidrofóbico;
mecanismo de interação com os tecidos;
indicação de uso.
Um exemplo importante são os monômeros funcionais capazes de interagir quimicamente com componentes da estrutura dental.
A literatura atual reforça que o desempenho dos adesivos universais está relacionado à composição e à estratégia de aplicação, e que a estabilidade da interface adesiva pode variar entre materiais.
Por isso, “universal” não significa “todos funcionam exatamente da mesma maneira”.
Podemos resumir em cinco grandes variáveis:
SUBSTRATO: Qual dentina está sendo condicionada?
ESTRATÉGIA: Como essa superfície foi preparada?
MATERIAL: Qual é a composição e o mecanismo de ação do adesivo?
TÉCNICA: O protocolo foi executado corretamente?
LONGEVIDADE: A interface permanece estável ao longo do tempo?
O erro é tentar encontrar um único fator responsável pelo sucesso. A adesão é uma cadeia.
Se uma etapa dessa cadeia é comprometida, a resistência inicial obtida no laboratório pode não se traduzir em longevidade clínica.
Antes de restaurar, não pense apenas:
“Qual adesivo vou usar?”
Pense:
Que substrato tenho?
Qual estratégia esse sistema recomenda?
Preciso condicionar seletivamente o esmalte?
Como devo tratar a dentina?
O tempo de aplicação está sendo respeitado?
Como estou controlando a umidade?
A fotopolimerização está adequada?
Estou seguindo o protocolo específico daquele produto?
Essa mudança de raciocínio é importante porque adesão não é uma propriedade que vem pronta dentro do frasco.
Ela é construída clinicamente.
O melhor adesivo disponível não compensa uma superfície mal preparada, um protocolo inadequado ou uma execução inconsistente.
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