Durante muito tempo, grande parte da Odontologia foi construída em torno da habilidade de resolver problemas quando eles apareciam.
Hoje, existe uma mudança importante: cada vez mais, o objetivo é antecipar variáveis, reduzir incertezas e controlar melhor as etapas do tratamento.
Isso aparece na seleção de materiais, no planejamento restaurador, na documentação, na análise de risco, nos protocolos clínicos e também na incorporação de tecnologias.
Mas existe uma distinção fundamental:
Previsibilidade não é saber exatamente o que vai acontecer. É reduzir aquilo que poderia ter sido previsto.
Um tratamento previsível não começa quando o instrumento entra em boca.
Começa quando o profissional reúne informações suficientes para compreender o problema.
História clínica, exame físico, exames complementares, fotografias, modelos e registros oclusais podem assumir diferentes pesos dependendo do caso.
Na prática baseada em evidências, a decisão clínica resulta da integração entre melhor evidência científica disponível, experiência profissional e características e preferências do paciente (SACKETT et al., 1996).
Isso significa que planejamento não é simplesmente criar um protocolo.
É identificar: o que eu sei, o que ainda não sei e qual informação preciso obter antes de tomar a próxima decisão.
Esse talvez seja um dos maiores equívocos.
Se todos os pacientes fossem iguais, poderíamos simplesmente aplicar o mesmo protocolo para todos.
Mas anatomia, condição periodontal, qualidade do substrato, hábitos, expectativa, risco biológico e características funcionais variam entre indivíduos.
Por isso, um protocolo previsível precisa ser adaptável.
Na Implantodontia, por exemplo, o planejamento tridimensional permite avaliar simultaneamente estruturas anatômicas, posição dos implantes e necessidades protéticas. A literatura mostra que o planejamento baseado em CBCT pode contribuir para decisões relacionadas à posição e angulação dos implantes e à relação com estruturas anatômicas importantes (BUSER et al., 2017).
O objetivo não é fazer todos os implantes seguindo exatamente o mesmo desenho.
É reduzir a incerteza antes da cirurgia.
Essa transformação é especialmente evidente na Odontologia digital.
Fotografias, escaneamentos intraorais, CBCT e softwares de planejamento permitem registrar informações que anteriormente dependiam muito mais de métodos físicos ou da interpretação visual isolada.
Mas registrar mais dados não significa automaticamente tomar decisões melhores.
O valor está em transformar dados em informação clinicamente útil.
Uma revisão sobre scanners intraorais destaca que a acurácia desses sistemas depende de fatores como extensão do escaneamento, estratégia utilizada, experiência do operador e características da superfície (MANGANO et al., 2017).
Ou seja:
A tecnologia pode reduzir algumas fontes de incerteza, mas não elimina a necessidade de interpretação clínica.
Existe outra mudança importante: o profissional está começando a olhar não apenas para o resultado final, mas para a qualidade de cada etapa que leva até ele.
Isso aparece, por exemplo, na avaliação de:
qualidade do escaneamento;
adaptação de restaurações;
controle de umidade;
registros oclusais;
processamento e esterilização;
documentação fotográfica;
protocolos de manutenção;
controle de materiais.
Em outras palavras:
resultado previsível depende de processo previsível.
Um estudo sobre restaurações indiretas CAD/CAM, por exemplo, mostrou que diferentes etapas do fluxo digital podem introduzir discrepâncias e que a precisão final depende da interação entre aquisição, processamento e fabricação (MANGANO et al., 2019).
Por isso, não basta perguntar:
“O resultado ficou bom?”
Também precisamos perguntar:
“O processo que produziu esse resultado pode ser repetido?”
A experiência continua sendo indispensável.
Mas existe uma diferença entre:
“Eu faço assim porque sempre funcionou para mim.”
e
“Eu faço assim porque conheço as indicações, limitações e evidências desse protocolo.”
A primeira depende principalmente da experiência individual.
A segunda combina experiência com conhecimento sistematizado.
É justamente essa integração que caracteriza a prática baseada em evidências (SACKETT et al., 1996).
E talvez seja essa a grande mudança na Odontologia contemporânea:
menos dependência do improviso;
mais planejamento;
mais documentação;
mais controle;
mais capacidade de verificar o que foi feito.
Afinal, o que significa ser previsível? Não significa eliminar o inesperado, nem significa transformar a clínica em uma sequência automática.
Significa reduzir as incertezas que podem ser reduzidas.
Um profissional previsível sabe que:
alguns riscos podem ser antecipados;
algumas variáveis podem ser controladas;
algumas decisões podem ser melhor informadas;
e outras continuarão exigindo julgamento clínico durante o atendimento.
É justamente por isso que ciência, técnica e tecnologia precisam caminhar juntas.
Quanto mais conseguimos prever, menos precisamos improvisar. E quanto melhor compreendemos aquilo que não podemos prever, melhor conseguimos responder quando o inesperado acontece.
SACKETT, David L. et al. Evidence based medicine: what it is and what it isn't. BMJ, v. 312, n. 7023, p. 71-72, 1996. DOI: 10.1136/bmj.312.7023.71.
BUSER, Daniel et al. Implant placement post extraction in esthetic single tooth sites: when immediate, when early, when late? Periodontology 2000, v. 73, n. 1, p. 84-102, 2017. DOI: 10.1111/prd.12121.
MANGANO, Francesco et al. Intraoral scanners in dentistry: a review of the current literature. BMC Oral Health, v. 17, n. 1, p. 149, 2017. DOI: 10.1186/s12903-017-0442-x.
MANGANO, Francesco et al. Accuracy of intraoral scanners: a systematic review of influencing factors. European Journal of Prosthodontics and Restorative Dentistry, 2019.
MANGANO, Francesco et al. Digital dentistry: a systematic review of the current literature. International Journal of Environmental Research and Public Health, 2019.
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